« A luta contra o cancro » ( 1)
Era uma pessoa que pisava o chão, tocava as estrelas, e agarrava a vida. Chamava-se Emília, o nome que me ficava pelos ouvidos, de coração e sangue a minha avó, tinha uma força de viver incomparável, e a sua maneira de ser era inconfundível, um sorriso incontrolável, e uma teimosia danada, as coisas tinham de ser tal e qual como ela queria, de personalidade forte, persistia das coisas, não era de meias palavras, o que gostava gostava, o que não gostava era escusado.
Lembro-me dos dias em que lá chegava por volta das 07:45 e lá estavam tapetes há janela e a casa arrumada, não sabia deixar nada para depois, e o que tinha de ser assim era, e as coisas aconteciam, para ela as coisas tinham hora e data para se cumprir, queixa-se de dores de pernas isto e aquilo, mas não parava, andava sempre de trás para a frente, era espantoso, não a imaginava parada fosse para o que fosse, os cozinhados faziam crescer agua na boca, todos os dias me levava e ia buscar a paragem do autocarro, todos os dias chegava a casa e tinha sempre sopa para comer, tinha sobremesas boas estufados, assados, arroz e massa de bacalhau, era tudo, ainda hoje ninguém faz arroz como o seu ..
E foi durante um almoço que tudo aconteceu, foi nas férias de verão 2009, estava eu, ela e o meu avô a almoçar quando de repente começou a berrar que a comida lhe estava nas costas, a chorar, e de repente parou, mas não tardou a passar um minuto para tudo tornar ao mesmo, estávamos desesperados, acho que por momentos o meu avô nem deu grande importância, sem saber mais o que fazer, liguei para o meu pai, que não demorou a chegar e a levou para o hospital, em minutos de espera puseram-na a soro, e mandaram-na embora, sugerindo que fizesse um exame ao estômago, a minha avó hesitou, não hesitava o resultado, temia era o exame, antes disso nada valeu as idas intensivas a medica de família que pouco ligou ao facto de ela estar a emagrecer de dia para dia, para ela e como ela dizia “ainda havia muita chicha”. Passado algum tempo dirigiu-se a uma nova medica com o mesmo problema o facto de emagrecer, receitou-lhe vários medicamentos e lhe marcou um exame logo no dia a seguir, talvez por até já suspeitar o resultado, chegou o dia do exame e ela fez não se queixou quase nada, dentro de dias soube-se o resultado, suspeita-se de um pequeno temor mas sem certezas de nada, sugeriu fazer-se uma ressonância no ipo ou no hospital de Famalicão, o que fosse mais rápido para se ter certeza e se dar acompanhamento, passado por volta de uma semana recebeu um telefonema do hospital de Famalicão, com data marcada para a véspera de natal, dirigiu-se e fez os seus haveres, entre uma espera dolorosa, ela só pensava no ipo, receava ter um mal ruim, todos a confortávamos dizendo que muita gente era indicado para o ipo sem ter nada de grave, e demos o exemplo de dois tios meus, de alguma maneira nunca ficou certa disso, mas também raramente mostrou medos e angustias, mas sabíamos que as tinha, como qualquer um de nós que soubesse que iria para o ipo, nem queremos imaginar. Comprimidos bem, comprimidos vão, recebeu-se o resultado suspeitado, mas não se tratava de um pequeno temor, mas de um grande temos já bem alastrado, que ocupava o estômago, o esófago parte do pâncreas. Acho que ao inicio nunca tive bem noção disso porque fizeram questão de me esconder ao máximo e fazer de mim ninguém, sem direito a saber, questionava o meu pai por ser ele quem acompanhava a minha avo as consultas se temor era o mesmo que cancro, ingenuidade ou não, nunca tinha passado por isto, ele negava, achando eu que era o mesmo esperei chegar a casa para puder pesquisar e aí tive certeza que era, mas continuava sem ter noção da dimensão do problema, mas sabia que cancro é cancro, e cancro não é bom.
(Continua)
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